Sep 18, 2008

“PORNO SHOW SHOCK” em Lata: notícia de primeira página do jornal diário Solomon Star – Edição de Quarta feira 17 de Setembro

Lata. Capital da província de Temotu. Província mais a leste das Ilhas Salomão. É aí que encontramos as ilhas de Santa Cruz, assim chamadas por Alváro de Mendana - navegador espanhol - na sua segunda viagem pelo Pacífico em 1595.

As ilhas de Santa Cruz, e mais precisamente a ilhota de Vanikoro, têm um significado muito especial para os françeses. Aí foram encontrado os destroços do Boussole e do Astrolabe, fragatas de La Pérouse. Navegador françês que após uma incrível e longa viagem pelo Pacífico sob as ordens de de Luís XVI, chegou a Botany Bay em 1788, cinco dias após a chegada da “first fleet”, para estupefacção dos ingleses. Após reabastecer-se, largou velas... para nunca mais ser visto. O desaparecimento de La Pérouse foi um mistério durante longos anos.

Em 1791, foi levada a cabo uma expedição liderada pelo Almirante D’entrecasteaux. Avistou Vanikoro, mas não acostou na ilha, perdendo assim a oportunidade de encontrar alguns membros da tripulão que, soube-se mais tarde, provavelmente ainda estariam vivos (consta que dois homens teriam sobrevivido até 1823). Espera-se que os sobreviventes não tenham avistado a frota!
Em 1827, Dillon, um capitão irlandês, encontrou alguns objectos, nomeadamente umas espadas, que acreditou pertencerem a La Pérouse. Estes foram formalmente identificados por De Lesseps, único membro sobrevivente da expedição de La Pérouse (De Lesseps tinha regressado a França para entregar a Luis XVI o relatório e mapas da viagem de Laperouse, antes deste continuar o seu caminho para a Austrália). Mas foi preciso esperar até 1960 para que a segunda fragata fosse localizada e só em 2005 foi essa formalmente identificado como a Boussole.

Os achados assim como os relatos das populações locais levam a acreditar que um ciclone foi responsável pelo naufrágio nos recifes. Alguns tripulantes teriam conseguido chegar a terra. Os que não foram massacrados pelas populações locais, terão construído uma pequena embarcação e tentado a sua sorte no alto mar. Nada mais se soube deste punhado de homens.

Muitos dos objectos encontrados estão hoje no museu marítimo de Nouméa na Nova Caledónia. Em Dezembro de 2003, os franceses organisaram uma cerimónia comemorativa em Nouméa com a presença de Marc de La Pérouse, um descendente da irmã do explorador.

Li no jornal que em finais de Setembro deste ano, chegará uma nova equipa françesa para continuar os trabalhos de investigação marítima no local e que decorre de momento, uma exposição sobre a expedição de La Pérouse em Paris

Chegar a Vanikoro é hoje um desafio. A Solomon airlines tem vôos 2 vezes por semana até Lata (quando há combústivel, claro...). Depois é ter sorte, e esperar por um barco... dias ou semanas. Ainda hoje existe o monumento à memória de La Pérouse erigido pelo capitão Dumont Durville em 1828.

Mas passemos agora a história recente. Porque Temotu foi alvo de um acontecimento histórico. Uma cimeira de governadores provinciais que contou com a presença do primeiro ministro, feito inédito na história de Temotu! Insere-se na política de descentralização do governo actual.

Só que as coisas não correram lá muito bem. Logo no primeiro dia da cimeira, o secretário do ministro provincial fez as honras de abertura com uma apresentão em power point. Passados uns slides, e para embaraço do apresentador, apareceram no écran umas fotografias supostamente pornográficas. Como relata o Solomon Star:”Mr Ganate was giving the powerpoint presentation in front of all premiers when the pornographic photos of a local female showed up”. “Quanto pornográfico” eram as fotos não se sabe! Também não se sabe bem o que aconteceu de seguida. Precipitação para desligar a apresentação, estupefaccção paralisante... Bem, o senhor Ganate (que não tinha feito o trabalhinho de casa i.e rever a sua apresentação) acabou por se desculpar, mas afirma nada ter a haver com o assunto. O primeiro ministro não achou muita graça e o senhor está alegadamente suspenso. Sabemos que a polícia apreendeu o material e que uma investigação está em curso! Vou aguardar os próximos episódios desta foto...novela.

Sep 15, 2008

Regresso a Honiara

Embarquei em Brisbane de regresso a Honiara na Sexta feira.. Com un sorriso, o comandante do voo saúda-me: “então, já está de regresso”. “Sim, com menos um dente”, respondo.

Uns dias após o nosso regresso de Portugal, o David e eu ficámos doentes - uma infecção respiratória e malária. Continua a ser um mistério onde apanhámos a malaria. O período de incubação é suposto ser de 7 dias, no mínimo (para este tipo de malária), e o David adoeceu 3 dias após o nosso regresso. Consultámos outro médico uma semana depois que emitiu algumas dúvidas. “Existem muitas vezes erros na análise dos testes”, diz nos ele. Enfim, o que é certo é que o tratamento foi super eficaz. Um dia após ter ingerido o comprimido e pela primeira vez em 6 dias, o David acordou sem febre!

Entretanto, comecou-me a doer um dente. Ainda fui ao hospital de Honiara (li algures que os serviços dentários eram excelentes). Um quarto escuro, uma cadeira que conheceu melhores dias, alguns “ferramentas” básicas, um lavatório castanho de ferrugem, paredes com manchas amarelas..”É só para confirmar que se trata de um abscesso” digo eu ao dentista, duas ou três vezes, sentando-me com alguma relutância na cadeira. Ainda tirei um RX. A revelação é feita manualmente. Uma pequena caixa com luzes infra vermelhas, três pequenas tigelas no interior com líquídos para a revelação, secagem e fixação. Aprendemos as 2 técnicas” diz me o dentista assistente que acabou o curso nas ilhas Fiji.
Ainda quis pagar mas não o hospital não sabia quanto cobrar. Deixei uns dólares a título de doação. E assim lá fui, rumo a Brisbane para tratar-me. Como é costume, voltei com chocolates, biscoitos, remédios, livros. Foi uma festa.

Ontem, Domingo fomos à praia a cerca de 15 minutos de Honiara. Bonegi beach. A praia está situada numa antiga plantação de coqueiros que teria pertencido a uma senhora de nacionalidade suiça. Pagámos a entrada, 20 doláres (cerca de de 2 Eur). Se tivéssemos um Hilux, o pagamento seria de 25 dólares. Espaços públicos são raros assim como a noção de propriedade privada, sobretudo nas zonas rurais. Tudo pertence às comunidades: praia, terra, rios, àrvores, fruta. Como não há registos cadastrais, as disputas são frequentes. Alguns “resorts” foram construídos em Guadalcanal, como em outras ilhas, com base nums acordos firmados com as comunidades. Muitos foram no entanto destruidos durante as “tensões” (como é conhecida aqui a guerra civil que lavrou em Guadalcanal entre 1999 a 2003), outras comunidades reclamando a propriedade
da terra. Quem quer investir nesta condições? Não é fácil estimular o turismo.

O Samuel chegou a Bonegi de bicicleta, e com um sorriso rasgado (boca e os poucos dentes tingidos do vermelho caracterísitico do betel), fez a pergunta da praxe. "Where are you from"? Nasci no Zimbabwe, diz o Paul e falámos sobre o Mugabe e sobre o acordo prestes a ser assinado.
"Então e tu" pergunta me ele? "De Portugal", digo eu. Fica a pensar um pouco e diz me. "Acho que Fátima fica em Portugal não é? é que eu sou católico e conheco, de nome, muito dos lugares santos". É raro a menção de Portugal despertar qualquer reacção. E quando isto acontece falam me invariavelmente de Ronaldo. Religião e futebol! Sempre 2 excelentes referências!

O Samuel fala-nos no barco que está afundado a 20 metros da costa. É japonês e foi bombardeado por volta de 1942. A tripulação ainda conseguiu manobrar o barco para chegar à costa e fugir para o mato. Diz o Samuel que os Americanos traziam cães a bordo para perseguir os fugitivos (assim como cavalos para puxar máquinas de guerra ou veículos quando ficavam encalhados).

Lembra-me a história daqule Japonês que, em 1965, foi localisado na ilha de Vella Lavella (na Província Oeste) resistindo estoicamente. Foi preciso distribuir alguns panfletos assegurando que a guerra tinha acabado, há já algum tempo... para que o coitado finalmente regressasse a casa, após 20 anos no mato.

Hoje o barco afundado é uma diversão para todos nós com a sua abundante fauna marina. Pela primeira vez, o David nadou sósinho até ao barco com as barbatanas e a máscara.